quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O sono de Maria

Maria gostava mesmo é de amor.
Toda noite, Maria sentava em sua cama para ter sua conversa diária com a companheira de pano. Com um som que lhe agradava ao fundo, Maria contava os fios do bonito cabelo de lã de sua amiga caolha, um acidente com um brutamontes de quatro patas, mas isso não vem ao caso.
A moça, de pés e mãos já lavadas, entrava nesse novo mundo que lhe abria as portas ali, agora com o cair da noite. Os sonhos eram muitos, e nem Maria ou nem mesmo a pequena caolha conseguiam entrar num consenso sobre qual seria o escolhido da noite. Cercada por um padeiro, desenhos, cartões fotográficos colecionados e uma família de cangurus pelados, a confusa garota só sabia mergulhar no seu mar de nostalgias, de associações malucas.

Relaxa- ela pensava.

Mas não, há essa hora as noias já estavam deletadas.
Ela ouvia Rita Lee dizer para alguém se mandar no seu rádio, gente mal a gente trata com desdém, 'se manca' Rita cantava.
Pois bem, bastou isso para Maria começar a associar as suas mais profundas associações.

Gente mal?
Maria não conseguia se lembrar de qualquer pessoa realmente má que tivesse conhecido, ouvido falar sim, mas conhecido, nunca.
Para ser bem sincera, no mais profundo universo que Maria navegava agora, ela confessava para sua amiga de pano que sentia que ela mesmo poderia ser uma pessoa má.
Sim, gente mal.
Por mais que Maria muitas vezes se escondesse por debaixo de qualquer atalho que a deixasse longe da visão alheia, ela não poderia negar.
Ali pra sua amiga de olho torto não. Não naquele universo que já se encontrava, onde nada é vergonha.
Por que esconderia? Pra que?
As pessoas temem muito - pensava Maria - ali sentada com sua Emília, Maria não temia nada.
Se sentia segura.
Lá sim, depois de passar por aquela porta, nada mais era problema, tudo era tranquilo, amigo.
Sentindo assim, Maria só teve vontade de abaixar a luz e descansar com Emília dessa viagem que juntas fizeram.
E assim foi, a menina se esticou agarrando a cintura de sua boneca, sentindo o cheiro da companhia que lhe agradava e da lã que já estava velha.
Estava tranquila, sabia que naquele mundo não tinha que se preocupar de maneira alguma em ser compreendida.
Agora já com Lulina ao fundo, Maria se sentia livre e prazeroza em afundar em si mesmo, tudo era calmaria.

Nua, limpa e jovem a garota acabara então por dar uma ultima acariciada em seus pés com eles mesmos para assim continuar a navegar pelos seus mares, até que a tempestade do amanhã a trouxesse o medo de cair de seu barco.

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